Giacomo Liberatore - 8

1 - Nascido na Itália, educado no Brasil ...

2 - A difícil vida na Itália durante a II Guerra

3 - Grandes mudanças aos 11 anos

4 - A construção da carreira

5 - Viagem pelo interior do Brasil, cinco ataques de malária

6 - Uma nova família

7 - Uma história de vida ligada à imigração

8 - “Coisas que não se pode esquecer”

Enquanto reconta sua história, Giacomo lembra em detalhes muitas situações que hoje soam engraçadas. Uma delas foi quando, aos 11 anos de idade, teve que deixar sua cidadezinha e fezer a grande viagem de navio rumo ao Brasil. Ele descreve as cenas, os ruídos, tudo tipicamente italiano.
Antes da partida, foram todos chamados a Roma para fazer exames médicos. “Botavam num prédio enorme, cerca de três mil pessoas, um com dor de dente, aquilo era uma balbúrdia”. Eram milhares de mães com os filhos. Os maridos estavam fora, haviam emigrado. Era muita gente, então dividiram e alguns foram fazer os exames em Nápoles. Só que os organizadores deram passagens coletivas.


- O nosso grupo estava com 25 pessoas, deixaram os bilhetes com um que havia feito o serviço militar, o Antônio. No dia seguinte, fomos à estação ferroviária de Roma que, era para nós, que vínhamos do interior, uma monstruosidade, até hoje quando alguém chega lá acha grande.
“Mãe puxando filho, puxando as orelhas, aquela choradeira, aquelas malas de garimpeiro, de papelão. Desce aqui, não, não é aqui, é no número 9, as crianças não andavam, tapas, aquela confusão. Jogavam primeiro as crianças no trem. Quando chegou o horário, fecharam as portas, a metade não tinha entrado, incluindo o cara que estava com a passagem. Quando chegou o controlador, não tínhamos o bilhete.”
A situação ficou tensa, pois queriam que os que não tivessem bilhete saíssem do trem na primeira estação. Crianças chorando. Os outros passageiros incomodados. Mães beliscavam os filhos para que chorassem. Ouviam xingamentos: “Vocês são tudo cafone”.
- Minha mãe, sempre foi uma mulher muito forte, disse não, “ninguém desce daqui”. Quando parou numa pequena estação, as crianças penduradas na saia da mãe, apareceu um senhor, “marechalo-carabineiro” (espécie de delegado) e disse “não desçam, ou esperem até chegar na cidade em que vou descer que é maior”. Quando chegamos lá, desceu todo mundo e alguém foi passar um telegrama para tentar resolver o imbroglio.
“A cada trem que chegava, todos do grupo ficavam espalhados pela gare e gritavam junto “Antôniooooooooo”. Com isso, todos os “Antônios” do trem apareciam nas janelas. Até que, enfim, chegou o nosso com os bilhetes. Essas são coisas que não se pode esquecer”.
Sobre a travessia, Giacomo explica que, naquela época, os navios eram pequenos, não tinham capacidade. “Dormia-se no chão. Se chovesse, alguém pegava uma doença, morria. Botavam num lençol e jogavam no mar”.
Quando o navio atracou, ao chegarem ao Brasil, o pai de Giacomo, que morava em Porto Alegre, não foi esperá-los. O tio havia pedido a um outro padre, em Santos, que fosse buscar mãe e crianças. Pregavam um bilhete no peito dos que desembarcavam e, caso não encontrassem ninguém esperando, era para retornar ao navio. Mas, o padre os estava esperando.
- Fomos para São Paulo e, no dia seguinte, o padre voltou com minha mãe para tirar as bagagens e baús na aduana. Como imigrantes, haviam recebido uma passagem de trem de São Paulo até Porto Alegre. Minha mãe ficou preocupada quando viu o trem, era tudo banco de madeira. Ela pagou diferença para ter uma cabine, apenas um beliche e uma cama, enquanto o padre ficou dormindo no banco de madeira.

“Quando saiu de São Paulo, era um trem elétrico, mas quando chegou perto da meia-noite, minha mãe viu pela janela que começavam a sair faíscas (haviam trocado o comboio por um tipo “Maria Fumaça”), não era mais trem elétrico. A viagem tinha previsão de durar quatro dias, mas descemos antes, descemos em Passo Fundo e, de lá passamos um fim de semana em Guaporé. Depois, fomos de ônibus para Porto Alegre. A primeira grande decepção de minha mãe, que nunca gostou do Brasil, foi com os trens".

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