Giacomo Liberatore - 3

1 - Nascido na Itália, educado no Brasil ...

2 - A difícil vida na Itália durante a II Guerra

3 - Grandes mudanças aos 11 anos

Na Itália, a mãe de Giacomo recebeu um comunicado perguntando se estaria interessada em se reencontrar com o marido no Brasil. Ela respondeu que sim, mas não tinha condições financeiras. Havia sido firmado um contrato Brasil-Itália no tocante às imigrações e, para que as famílias se reencontrassem, as passagens eram pagas pelos dois governos. Isso durou aproximadamente cinco anos, entre 1951 e 1956. Segundo Giacomo, sua família fez parte das duas últimas levas, porque em seguida foram encerradas as imigrações através desse sistema.
– Quando chegou a hora de vir embora, vendemos todas as bicicletas e viemos para cá, isso foi em 1953. Viemos de navio, pequeno, tinha uns 1.200 imigrantes, a viagem levou 18 dias. Alguns desceram no Rio, nós descemos em Santos, outros em Montevidéo e Argentina, espalhou tudo por aí. Também tinha 1ª. Classe, com umas 200 ou 300 pessoas.
A chegada da família ao Brasil foi possível porque eles tinham contato – por carta – com um tio, padre, que residia em Guaporé, no Rio Grande do Sul. “Tio Roberto”, irmão da mãe de Giacomo, responsabilizou-se pelos novos imigrantes.
Padre Roberto já havia conseguido trabalho para o pai de Giacomo num orfanato de padres italianos em Porto Alegre. Ali, ele podia dar aulas e ensinar a profissão de sapateiro aos jovens. Mas, os alunos não tinham muito interesse, gostavam mais de aprender tipografia. O pai, então, começou a trabalhar como sapateiro autônomo.
– Eu tinha 11 anos quando vim, em 1953. No interior da Itália, falávamos só dialeto, mas quando íamos para a aula, o professor falava italiano. Era como se fosse outra língua. E eu sempre fui muito ruim, apanhava da minha mãe. Tirava zero na redação, os professores nos massacravam. Quando cheguei aqui, não precisava mais do italiano. Em casa, falávamos dialeto e fui aprendendo português.
Havia concluído o primário lá, e estava fazendo o 1º. ano ginasial. Chegando aqui, minha mãe não conseguia vaga, só no 1º. ano primário. Mas, ela não queria que eu perdesse cinco anos, por isso decidiu esperar apenas os baús chegarem e pretendia voltar em seguida para a Itália.
Forte e determinada, a mãe de Giacomo conheceu a filha de um açougueiro calabrês com quem logo fez amizade (ele acrescenta que os açougueiros da cidade eram todos italianos e ganhavam muito dinheiro nessa profissão). Juntos, foram falar com o reitor do Colégio Anchieta, um dos mais caros de Porto Alegre. A mãe falava, o calabrês traduzia. No meio da conversa, foi mencionado o irmão “padre” e, sob essa influência, tudo ficou mais fácil.
Afinal, o menino Giacomo conseguiu ser colocado no 5º. ano primário no mesmo colégio onde o pai ensinava. Mas daí veio o primeiro desafio: o exame de admissão para o ginásio. O menino conseguira a vaga, mas precisava passar e os exames eram todos em português.
– Meu tio me levou para um seminário e, no período desde antes do Natal até fevereiro, das 5h da manhã até a meia-noite eu estudava. Era Português, Matemática, História e Geografia do Brasil. Em Português, passei ali, ali, nota 4,2. História aprendi “na marra” e também passei. Depois disso, estudei os quatro anos de ginásio, ingressei no Científico, no Anchieta, sempre com bolsa. Conseguíamos renovar sempre.
Recentemente, Giacomo encontrou por acaso um antigo professor de português, da 1ª. série ginasial, que comentou: - “você, em vez de fazer as redações em português, fazia em italiano”. É que, para ajudar quando o pequeno chorava em casa dizendo que não sabia nada de português, a mãe mandava que escrevesse “em italiano mesmo”. Por sorte, “esse professor entendia, porque era da colônia italiana”.

4 - A construção da carreira

5 - Viagem pelo interior do Brasil, cinco ataques de malária

6 - Uma nova família

7 - Uma história de vida ligada à imigração

8 - “Coisas que não se pode esquecer”

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