Giacomo Liberatore

Um italiano que se torna (veramente) brasileiro

Por Iracema Pamplona Genecco - março de 2012

1 - Nascido na Itália, educado no Brasil, Giacomo Liberatore é um entre tantos que para cá vieram, reconstruíram suas vidas e ao mesmo tempo ajudaram a construir este país. Aqui ele empenhou anos de trabalho e constituiu sua nova família. Há vários anos, entre outros afazeres integra a diretoria do Círculo Ítalo-Brasileiro de Santa Catarina (CIB-SC) e atua ainda como voluntário na Pastoral do Imigrante em Florianópolis.
Giacomo tem histórias interessantes a contar, muitas ligadas à sua própria história.
Ainda menino, aos 11 anos de idade veio parar no Brasil, depois de uma longa viagem de navio com a família, para reunir-se ao pai que havia emigrado. Na época milhares de europeus e, em seguida, suas famílias, buscavam no Brasil um lugar melhor para viver e trabalhar. Entre estes, muitos italianos que terminaram se fixando no sul.
No Rio Grande do Sul, Giacomo aprendeu português, estudou e se formou Geólogo. Quando jovem, aventurou-se pelo interior do Brasil numa época em que não havia facilidade de transporte e as condições de trabalho eram precárias. Contraiu malária cinco vezes, enfrentou dificuldades e quase passou fome. Mas, a paixão pela profissão se manteve sempre intensa. Ainda hoje ele guarda espécies de pedras catalogadas em prateleiras no apartamento em que reside com a família e onde nos concedeu esta entrevista.
Giacomo diz em tom de brincadeira: “sou italiano de nascimento, gaúcho de opção, amazonense de coração e catarinense ‘de obrigação’, pois me mandaram para cá por seis meses e não deram passagem de volta. Estou até hoje aqui”. Quem o conhece, entretanto, sabe que Giacomo é tudo isso, mostrando sua imensa capacidade de adaptação forjada desde a infância.
A nosso pedido, ele tenta contar sua trajetória desde o início. Mas a narrativa vai sendo interrompida diversas vezes para incluir uma lembrança importante, explicar melhor qualquer detalhe ou pelo seu jeito particular de falar, colorindo tudo com toques pitorescos e engraçados. Como bom italiano, se deixar Giacomo segue "parlando, parlando, parlando..."


2 - A difícil vida na Itália durante a II Guerra

Giacomo nasceu em Castel de Sangro (Abruzzo), na mesma cidade em que nasceu seu pai, enquanto a mãe e a única irmã são de Ateleta. Num português perfeito, sem qualquer traço de sotaque estrangeiro, ele vai contando sobre as dificuldades que atingiram sua família levando-a a abandonar a Itália ... mais

3 - Grandes mudanças aos 11 anos

Na Itália, a mãe de Giacomo recebeu um comunicado perguntando se estaria interessada em se reencontrar com o marido no Brasil. Ela respondeu que sim, mas não tinha condições financeiras. Havia sido firmado um contrato Brasil-Itália no tocante às imigrações e, para que as famílias se reencontrassem, as passagens eram pagas pelos dois governos. Isso durou aproximadamente cinco anos, entre 1951 e 1956 ... mais

4 - A construção da carreira

No início, a família foi morar na Vila Ipiranga, “o bairro mais longe que existia”, segundo Giacomo. “Só tinha terra pra vender. A única coisa que meu pai fez antes de a gente chegar foi comprar um terreninho, 10m x 20m, não tinha nada ao redor da casa de madeira, não tinha luz, água era de um poço. Minha mãe não admitia morar numa casa de madeira”.
– Chegamos aqui no dia 5 de maio de 1953, em dezembro já estávamos numa casa. Em 1966, me formei em Biologia na Universidade Federal. Fui transferido dois anos depois para Belém do Pará ...
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5 - Viagem pelo interior do Brasil, cinco ataques de malária

Foi durante a primeira viagem da equipe para a Amazônia que Giacomo pegou malária pela primeira vez. Durante os preparativos, ele estava comprando alimentos para a equipe: arroz, feijão, Nescau – a ser diluído com água – mais 5 quilos de farinha de mandioca, quando foi logo aconselhado a comprar dois sacos de 60 quilos cada. “Foi essa farinha que nos matou a fome. Porque não sabíamos quantos dias estaríamos viajando, quantos dias ficaríamos em cima da serra. Botava farinha, água, sentava no chão. É assim que comem os caboclos” ... mais

6 - Uma nova família

Noivo quando partiu para a Amazônia, cerca de três meses depois da chegada em Belém, ao retornar do Acre, Giacomo recebeu uma carta da noiva terminando o compromisso. Depois, ela quis reatar, mas era tarde. Por causa de uma amazonense, Giacomo pediu para ser transferido de volta a Porto Alegre, em 1978, recomeçando a carreira como geólogo, depois de ter estado no posto máximo da empresa. “Dali, só poderia subir e ser diretor no Rio, mas deixei tudo”, conta ele, “para não arrumar confusão” ... mais

7 - Uma história de vida ligada à imigração

Giacomo Liberatore veio parar no Brasil por conta das correntes migratórias. Sua família estava na última grande leva de italianos que aqui aportaram. Milhares, na época, atraídos pela esperança de oportunidades na América, abandonavam a Europa empobrecida. Esse fato teria importância não apenas na história pessoal da vida daquele menino, mas na constituição da própria identidade nacional dos que deixavam para trás sua terra natal ... mais

8 - “Coisas que não se pode esquecer”

Enquanto reconta sua história, Giacomo lembra em detalhes muitas situações que hoje soam engraçadas. Uma delas foi quando, aos 11 anos de idade, teve que deixar sua cidadezinha e fezer a grande viagem de navio rumo ao Brasil. Ele descreve as cenas, os ruídos, tudo tipicamente italiano.
Antes da partida, foram todos chamados a Roma para fazer exames médicos ...
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