Impressões da Bella Itália

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Por Kamylle Bruno

ELO - Grupo de Pesquisa em Comunicação Intercultural
Edição 09 - Abril de 2011

Em geral, pensar em Itália é fazer uma associação automática do país europeu aos velhos clichês: pizza, vinho e futebol. Há que se discordar plenamente. A Itália é muito mais que puro simbolismo. Depois que a “conheci pessoalmente”, enxerguei com mais critério um berço de cultura tombado eternamente como um museu a céu aberto. Um emaranhado de cidades espetaculares capazes de aguçar qualquer um de nossos sentidos. Conhecer algumas das principais cidades italianas foi um encontro mais que proposital com gosto especial de descoberta e realização.
Minha paixão pela velha “bota” é antiga. Talvez herança dos meus antepassados que deixaram em mim, além do sangue italiano, um desejo incomensurável de desvendar detalhes daquele lugar e estar mais próxima da minha origem. Passei tempos paquerando fotos de cidades, lendo histórias reais, suspirando ao som das baladas românticas de Tiziano e arriscando a língua, que na minha opinião é, das latinas, a mais bonita.
Quando, finalmente, fazer uma viagem tornou-se um sonho próximo, passei a contar os dias e as noites até que eu pudesse tirar a prova real de todo o encantamento por aquela cultura.
Tratei de buscar roteiros, relatos de mochileiros, referências e lugares os quais não poderia deixar de ir jamais.
Tudo pronto, coração e ansiedade a mil, lá fomos nós. Antes de pisar em solo italiano, fizemos uma conexão em Lisboa, coincidência ou não, mais um país do qual tenho descendência e pretendo voltar, em breve, para conhecer os “parentes” do Porto. Depois de horas no aeroporto português devido a problemas no espaço aéreo espanhol, voamos até Malpensa.

Primeira parada: Milão, capital financeira da Itália e a “meca” da moda. Na Galleria Vittorio Emanuele II é possível encontrar as lojas de grandes marcas como Valentino, Gucci, Versace, Prada, Armani e Dolce & Gabbana, todas com sedes na cidade. Mas o que mais me chamou atenção não foi o glamour, mas a riqueza de arte e história espalhada ao redor. Na Piazza Del Duomo onde fica a imponente Catedral da cidade, ouvi diversas línguas no que parecia uma Torre de Babel, cena que se repetiu em todas as “comunas” pelas quais passei. Sem precisar ir longe, podia se visitar o Teatro Scala, um dos teatros de ópera de maior prestígio no mundo, ou apreciar a Santa Ceia original de Leonardo da Vinci, na igreja Santa Maria delle Grazie, embora a visita precise ser agendada com até meses de antecedência. Por ser mais ao norte, foi a cidade onde peguei a menor temperatura, -2ºC, e onde tive a sorte de vir cair a neve na estrada. Muito casaco, gorro e cachecol para dar conta, mas uma sensação inicial indescritível.
Depois de comer a primeira pizza original da Itália, que é do tamanho da que chamamos de média no Brasil, só que servida individualmente, já senti que seria difícil não ganhar uns ‘quilinhos’ a mais. Afinal, da massa ao molho de tomate caseiro, é impossível não ficar com o gosto de “quero mais”. A comida é
realmente saborosíssima e as sobremesas espetaculares. O famoso “Gelato” está em todas as esquinas mesmo no inverno. VeronaVeronaCom uma grande variedade de sabores, o sorvete é super cremoso e feito, em sua maioria, artesanalmente. Muitos dão destaque ao de Tiramisu, não consegui definir o melhor!

Chegamos em Verona à noite e fomos direto ao ponto principal da comuna: a suposta casa da Julieta, de William Shakespeare. Reza a lenda que se a pessoa tocar o seio esquerdo da estátua da moça, que fica bem ao lado da casa-museu, terá sorte no amor. Claro que se formavam filas, tanto para tirar a foto com a heroína de bronze, quanto para suspirar na sacada onde ela esperava por seu Romeu. Um lugarzinho romântico e encantador que, não à toa, foi declarado patrimonio da humanidade pela Unesco por sua estrutura urbana e bela arquitetura, assim como outras cidades italianas.
A cada passo por aquelas ruas estreitas eu perguntava o que mais poderia me
surpreender pela frente. O ar medieval despertava curiosidade de um tempo que não vivi, mas que permanecia intacto naquelas construções bem ali na minha frente. Estava num cenário permanente de uma cidade que sobreviveu ao tempo. E era só o começo das maravilhas que estavam por vir. Mesmo longe de casa, me senti segura e bem recebida por cada italiano, seja nos mercados, restaurantes ou mesmo nas ruas. Geralmente, foram simpáticos e
atenciosos, bem diferente da imagem rabugenta, fria e escandalosa que se costuma ouvir por aí.

Talvez uma das mais aguardadas visitas, Veneza sempre foi a primeira da lista “cidades que preciso conhecer”. Já no barco que nos levou às ilhas, senti uma emoção inexplicável quando já podia avistar os vários canais e monumentos. Andar pela Piazza San Marco, galerias de arte, museus e vielas sem saída, mesmo debaixo de chuva, foi fascinante. Olhar as gôndolas da Ponte dos Suspiros e se perder entre as milhares de máscaras venezianas espalhadas nos mercados era como estar no século XVIII.
Quando se observa os guardas municipais levantando passarelas entre as vielas para evitar que a população e visitantes andem pelos alagamentos, nota-se que a cidade é super preparada para o turismo até nos imprevistos. Veneza é uma cidade cara, mas nas feirinhas se encontra preço melhor do que mais próximo dos pontos turísticos. Se você não conseguir comprar um cristal em Murano, não se preocupe, encontrará algo mais em conta pelo caminho.
Aliás, vale lembrar que o cafezinho italiano tem preço diferente se você toma em pé ou sentado. Portanto, se quiser ter um desconto, peça para viagem.

De volta à estrada, passamos em Pádua para conhecer a Basílica de Santo Antônio, franciscano que nasceu e faleceu na cidade. Logo depois, tomamos rumo à Florença, capital da Toscana e berço do Renascimento italiano. Destaque para as diversas e belíssimas catedrais de épocas e estilos diferentes. Em “Firenze”, estão as mais famosas obras de artistas como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Giotto, Botticelli,entre outros. Pontos imperdíveis são a Galleria degli Uffizi, a Galleria dell'Accademia, onde
está o David, de Michelangelo, e a Piazza del Duomo.
Uma lenda local diz que aqueles que tocarem o focinho da estátua do javali na Fontana Del Porcellino retornarão à cidade. Daí a explicação para essa parte do monumento ser tão bem polida.

Pisa, Siena e Assis foram outras cidades que passamos pelo caminho. Como não ir até a Torre Inclinada e tirar a tradicional foto empurrando a construção? Também paramos na Piazza Del Campo, em Siena, onde se realiza a famosa corrida de cavalos, o Palio di Siena. Assis é simplesmente emocionante para aqueles que buscam a renovação da fé. Em um lugarejo na região da Úmbria, avistamos a Basílica franciscana, no alto de um vale, que guarda o túmulo de São Francisco de Assis.

Chegamos ao ápice da viagem quando avistamos o Coliseu iluminado, em Roma - San PietroRoma - San PietroRoma. Um dos símbolos máximos da capital romana foi o ponto de partida para desbravar a cidade à noite. Parada obrigatória para jogar as moedinhas na lindíssima Fontana di Trevi e comer um “panino” na Piazza Navona – local onde fica a embaixada brasileira na cidade. Ao amanhecer, uma visita a Piazza di Spagna, ponto de encontro dos “ragazzi” e sempre lotada de pessoas. Um passeio imperdível e pouco divulgado é subir a ladeira da Via di Porta Lavernale até chegar ao portão da Sede dos Cavaleiros de Malta. É o buraco de fechadura mais incrível do mundo de onde se vê perfeitamente emoldurada a cúpula da Basilica di San Pietro, no Vaticano. Aliás, visitar os museus “Vaticani” é descobrir a beleza da arte sacra e passear pela história religiosa. A Capela Sistina é tão rica de detalhes artísticos que mal se consegue focar em um só ponto. Magnífico!
Roma é sem dúvida uma a cidade eterna, um verdadeiro museu a céu aberto. É tanta história e curiosidade que cada esquina te convida para uma visita. Existe uma infinidade de lugares para se descobrir. Foi no Campo dei Fiori, onde funciona um dos maiores mercados locais, que encontrei a estátua do filósofo Giordano Bruno - quem sabe um ancestral? - que foi queimado vivo, naquele lugar, pela igreja católica, na condição de herege por ter afirmado que a Terra girava em torno do Sol. De metrô se vai a qualquer ponto da cidade, pena que, além de só haver duas linhas, as estações não são tão limpas.

Em Nápoles visitamos Pompéia, cidade destruída durante uma grande erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C. As escavações PompeiaPompeiaproporcionaram um sítio arqueológico extraordinário que possibilita uma visão da vida de uma cidade dos tempos da Roma Antiga. Outro lugar incrível do golfo de “Napoli” é a Ilha de Capri. Para subir até o topo pegamos o “Funiculare” – qualquer relação com a música “Funiculì Funiculà” não é mera coincidência -”, uma espécie de bondinho que nos leva até um mirante de onde é possível avistar um grande mar de águas azuis cristalinas. Capri é famosa por produzir o Limoncello, um delicioso licor de limão artesanal que é tradição de família.
Depois de tanta realização, voltei para o Brasil já esperando meu retorno à Itália e fazendo novos planos. Depois de tanto fascínio, decidi aprimorar os conhecimentos da língua e cultura italianas. Por isso, aguardo o segundo semestre de 2011 quando iniciarei minha segunda graduação:
Português - Italiano e Respectivas Literaturas. Além de realizar um sonho e
apaixonar-me definitivamente pela “bota”, posso dizer que fui testemunha de um rico passado histórico, cultural e artístico que continuará presente, por longos anos, na minha lembrança.

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