Turismo pela Itália insular

Por Iracema Pamplona Genecco - outubro 2011

Após quase 15 horas de viagem, partindo num ferry de Civitavecchia, chego à SARDEGNA, terra do meu trisavô, que dali partiu em 1847 a fazer não se sabe o quê no Brasil. Trilho agora o caminho inverso, vindo conhecer esta terra. Logo nos primeiros passos pela capital Cagliari, meus tímidos contatos em italiano com as pessoas do lugar me rendem duas simpáticas cicerones: Romina e sua mãe também subiam as escadarias da fortaleza medieval Bastione di Saint Remy, de onde se desfruta uma vista panorâmica da cidade. Passamos a tarde juntas e recebi dicas preciosas para minha estada ali.
Meus itinerários preferidos durante a semana que passei em Cagliari: andar pelas ruas estreitas da cidade antiga, sentar em um dos bares e cafés da praça Yenne, tomar um sorvete na Via Roma, cujas boutiques atraem como moscas os turistas que chegam de navio e acorrem direto do porto para as suas galerias. Ah, a culinária sarda, baseada em peixes e frutos do mar pescados no local é uma atração à parte. A praia del Poetto, a poucos quilômetros de ônibus, é uma das tantas com areias brancas e águas cristalinas que envolvem toda a ilha da Sardenha.
A Basílica de Nossa Senhora de Bonaria proporciona uma vista particularmente interessante de Cagliari e de seu porto. Nas proximidades, fica o cemitério de Bonaria, quase uma galeria de arte ao ar livre. O local reúne uma estatuária em mármore das mais belas que tive oportunidade de ver. Os estilos, do neoclassicismo, realismo e simbolismo, refletem a vibrante cultura da época em obras produzidas na Itália da segunda metade do século XIX às primeiras décadas do século XX.


Porto de CagliariPorto de Cagliari
Outra cabine de navio me leva à SICÍLIA. Em Agrigento, terra de Luigi Pirandello, estive no Vale dos Templos e conheci o rico legado arqueológico local. Criada entre 582-580, a cidade chegou a ser uma das mais ricas colônias da Magna Grécia. Antigas construções de estilo dórico, datadas dos séculos 5 e 6 a.C, hoje parcialmente restauradas, representam algumas das maiores e bem conservadas fora da Grécia e estão arroladas como Patrimônio da Humanidade.
Próxima base, Catânia, de onde pretendia ir ao Monte Etna e às vizinhas Siracusa, Taormina e Messina. Destruída por erupções do Etna e por terremotos, a Catânia teve sua arquitetura barroca reconstruída e o centro da Agrigento - Valle dei TempliAgrigento - Valle dei Templicidade integra hoje o Patrimônio da Unesco. Ali conheci Elke, uma alemã, como eu viajando sozinha. Isso alterou minha rota. Deixei para trás o Etna e Taormina, o que, provavelmente, me levará um dia de volta ao sul da Itália.
Elke estava indo para Tropea, na Calábria, para o batizado de uma neta, e convidou-me a conhecer aquela cidade da qual eu jamais ouvira falar. Adoro os mares e suas histórias. A travessia entre a Sicília e a Calábria é feita no Estreito de Messina, que une o Tirreno, o Jônico e o Mediterrâneo. Durante o trajeto, algo inusitado: o trem literalmente “embarca” num navio com toda a sua carga e passageiros. Uma vez estando do outro lado, coloca-se sobre os trilhos de novo e segue a viagem.

De Tropea, outro trem para Nápolis e dali, de barco, para a ilha de ISCHIA, vizinha à famosa Capri. Escolhi um hotel em Ischia Ponte, próximo a um dos monumentos mais visitados do local, o Castelo Aragonês. Construído em 474 a. C, como fortaleza, o castelo é hoje uma propriedade privada. Paga-se para entrar e é bom reservar umas quatro horas para ver tudo, incluindo os jardins.
Um dos locais que chama atenção é o “Cemitério de Freiras”. Até 1810 viviam ali freiras da ordem das Clarissas que, como parte de suas práticas, deixavam seus mortos em cubículos, numa espécie de assento de pedra, com calhas e furos para drenagem. Enquanto os corpos se decompunham naturalmente, as religiosas eram obrigadas a fazer ali suas orações diárias, vendo as companheiras sem vida, para meditar sobre a inutilidade do corpo enquanto simples depósito do espírito.Antigo mapa da Itália insularAntigo mapa da Itália insular
No lado externo, um belvedere, amplos pátios e jardins também podem ser visitados. Há ruínas da antiga construção e pode-se admirar a estrutura arquitetônica do castelo, em que se sobrepõem características de diferentes épocas. No percurso, videiras que crescem quase despencando em direção ao mar e cultivo de oliveiras, além de mostras da exuberante vegetação mediterrânea. Tudo circundado por sendas floridas, terraços, igrejas e monumentos antigos.
O local possui cafeterias e restaurante, mas uma boa pedida é experimentar a variedade oferecida na redondezas. Encontrei um lugar simples e perfeito para orçamentos despretensiosos, com atendimento e cardápio excelentes sob supervisão dos proprietários: Tratoria Sciuè Sciuè. As mesas ao ar livre permitem observar as idas e vindas dos transeuntes na rua em frente, ladeada por sorveterias, pastelarias e lojas.
No lado oposto da ilha, em Forio d’Ischia, instalei-me em um apartamento com amplo terraço inclinado em direção à praia. Passei os dias restantes entre longas caminhadas, boas refeições e passeios de barco e de ônibus. Dediquei um dos dias para um passeio à Costiera Amalfitana com paradas em Capri, Positano e Amalfi.
A paisagem é estonteante. Vislumbram-se amplos terraços brancos que se debruçam sobre o mar, cujo azul mistura-se ao céu e se mescla ao colorido ensandecido dos buganvilles que florescem pelas frestas dos muros, nos telhados, em meio à vegetação. A região é conhecida pela sua produção de limões, cultivados em jardins ao longo da costa, além do popular limoncello (licor típico).
Em Amalfi, saindo do porto, segui por uma daquelas ruas estreitas típicas de centro histórico das cidades italianas que levam direto ao coração do lugar. Embrenhei-me encantada olhando tudo e tirando fotos até me ver, de repente, em uma pequena praça, quase espremida, cercada de prédios. No topo de uma escadaria, a Catedral de Santo André causou-me uma impressão de beleza daquelas de suspender a respiração.
Castelo de IschiaCastelo de Ischia

Back to top