Cooperativismo – Uma Experiência Inédita

Por João Andreata de Souza - janeiro de 2011

Fazendo-se uma retrospectiva na história da humanidade constata-se que o cooperativismo surgiu a partir de experiências sobre a prática da cooperação entre os humanos, mais especificamente na luta pela sobrevivência (caçar, pescar, colher frutas, construir abrigos). Seu surgimento ocorreu na forma de uma doutrina econômica que atribuiu às cooperativas um papel importante para a realização do social – distribuição equitativa dos resultados – por meio do econômico (conjugação de forças e produtos), tendo o homem como protagonista.

Desde que surgiu em 1844, na Inglaterra, durante a segunda onda econômica também conhecida por revolução industrial, despertou todo tipo de interesse entre indivíduos que buscavam e continuam na busca de conhecer sua aplicabilidade direcionada para melhorar a vida das pessoas.

O cooperativismo ficou conhecido em todos os recantos da terra, por meio de experiências realizadas em diferentes regiões e países, muitas delas resultando verdadeiras pérolas cultivadas por pessoas que, abrindo mão de suas individualidades e diferenças, decidiram pela construção de uma vida melhor para si e para seus descendentes.

Na sua essência trata-se de uma construção que precisa ser executada pelos próprios cooperados, pressupondo aí que interesses individualistas e egoístas devam ceder lugar para interesses coletivos, bem compreendidos, o que significa dizer que é fundamental conhecer e entender os mecanismos de funcionamento de uma cooperativa, pois só assim será possível evitar que ela se mantenha em mãos de pessoas despreparadas para administrá-la.

Não se pode negar que o cooperativismo brasileiro tenha uma história assaz controversa quanto à prática dos princípios rochdaleanos, pois desde sua implantação em 1890 por meio de Decreto lei e pelas mãos do Marechal Deodoro da Fonseca, o foi para ser usado, certamente, na concretização da causa republicana recém implantada no país, e não para ajudar o homem a superar as dificuldades econômicas já existentes naquela época.

A partir de então o cooperativismo vem sendo aceito, rejeitado, utilizado, usado pelos governantes, jamais praticado como seria correto, tendo por resultado a criação de cooperativas para as mais diversas finalidades, nem sempre bem sucedidas.

Estranhamente diferente das experiências de outros países, no Brasil o cooperativismo conseguiu sobreviver à duras penas, enfrentando a boa ou má vontade de governantes, que ora apoiavam e ora controlavam, dependendo do sistema de governo no poder.

Desde aquela primeira experiência do Marechal Deodoro até a promulgação da nova Constituição em 1988, foram experimentados mais períodos de ditadura, seja civil ou militar, do que com liberdades democráticas e, em tal situação, era o funcionário de uma empresa pública que se encarregava do controle do cooperativismo, normalmente destituído de qualquer conhecimento, mas sempre com postura autoritária em nome da autoridade.

Após longos anos de controle governamental, por meio de pessoas leigas e sem nenhum preparo técnico para a função, resultou esta falsa imagem que a população tem do cooperativismo, uma cultura distorcida e já incrustada na memória coletiva, desde o mais comum cidadão até nos mais altos escalões das instituições brasileiras, decorrente mais do fracasso de muitas cooperativas do que por se tratar de uma cooperativa em si.

Esta situação passou a ser analisada por estudiosos que, ao se depararem com tais fatos concluíram que as pessoas passavam a se comportar como verdadeiras barreiras no funcionamento de suas cooperativas, devido unicamente a falta de conhecimento que leva à falta de consciência cooperativista, levando o processo a esbarrar no próprio homem a quem pretendia ajudar, pois homem despreparado não contribui para a cooperação, nem dentro e muito menos fora da cooperativa.

Outra barreira que o cooperativismo brasileiro enfrenta é a falta de uma legislação especifica para as cooperativas, pois a Lei 5764/71 ainda em vigor, apesar de muito remendada e pouco conhecida e de ter sofrido uma limpeza autoritária com a nova Carta Constitucional de 1988, também contribui para agravar mais esta situação, não oferecendo as garantias necessárias para seu pleno funcionamento.

Considerando que estamos, ainda, vivendo um período de transição para a democracia, e que pode ser fortalecido com a prática do cooperativismo, ele continua sendo procurado para os mesmos objetivos para os quais foi criado. Prova disso é a iniciativa que foi lançada recentemente na região sul do nosso Estado, no sentido de implantar um modelo baseado em pequenas cooperativas, criadas a partir da formação e preparação das pessoas interessadas em fazer parte de uma empresa socioeconômica, nos moldes do modelo cooperativista trentino, que tem uma história de mais de 120 anos de experiência bem sucedida, com pessoas organizadas em cooperativa.

Referida iniciativa já em andamento, cumpriu a primeira etapa com a realização de um curso de cooperativismo que envolveu um grupo de oito pessoas, todas da mesma localidade, Linha Rio dos Pinheiros, no Município de Orleans, no sul do Estado.

Todos fazem parte de uma comunidade que foi desbravada e construída por colonizadores de origem Trentina que ali se instalaram no final do século XIX, cuja história é pouco conhecida, mas muito relatada por historiadores, escritores, jornalistas, e pessoas que gostam de resgatar as histórias de seus antepassados.

Ala (Trentino Alto Adige)Ala (Trentino Alto Adige)Recentemente alguns descendentes daqueles colonizadores fundaram uma entidade associativa denominada “Sociedade Amigos de Ala – Sodeala”, no município de Orleans, em homenagem à cidade de origem daqueles desbravadores, ALA, situada numa região montanhosa do vale do Rio Adige, próxima à cidade de Rovereto.

A partir dessa nova situação associativa iniciou-se um contato mais estreito com as autoridades daquela cidade, na busca de intercâmbios técnicos e culturais com o intuito de construir um caminho que tornasse mais próximos os aspectos culturais tão bem preservados lá na terra de origem,bem como as experiências que foram acumuladas durante este período, dentre elas a do modelo cooperativista trentino, reconhecido mundialmente como mais eficiente e mais bem organizado.

Destes contatos iniciados há pouco mais de cinco anos, aconteceram algumas visitas de comitivas vindas daquela região, resultando recentemente numa proposta de intercambio técnico que culminou com a realização de um curso de cooperativismo aqui no Brasil e um estágio de 35 dias no território da Região Trentino Alto-Adige.

Deste estágio participou um grupo de 8 pessoas daquela comunidade, acompanhado pelo Técnico especializado em Cooperativismo pela OIT, Engº Agrº João Andreata de Souza, com larga experiência daquele modelo de cooperativismo, os quais durante as cinco semanas que lá permaneceram tiveram a oportunidade de conhecer, in loco, o funcionamento de todos os ramos do cooperativismo instalados naquela região.

No final do curso foram homenageados pelos diretores da Federação Trentina de Cooperativas por terem demonstrado pontualidade nos encontros e participação efetiva no decorrer de todo o curso, bem como pelo conhecimento básico do cooperativismo e da língua italiana, componentes fundamentais que contribuíram positivamente no processo de aprendizagem das práticas cooperativistas.

O curso foi patrocinado pela Cassa Rurale Bassa Valagarina e pela Província Autônoma de Trento, instituições que tem por compromisso investir permanentemente na formação cooperativista, não só entre seus associados e cidadãos, como também entre os descendentes daqueles abnegados agricultores que deixaram seus lares e propriedades para amenizar a situação de miséria e dificuldade, próprias daquela época, entre os que lá permaneceram.

Na conclusão do curso foi assumido o compromisso de dar continuidade ao projeto em terras catarinense, objetivando a criação de uma cooperativa agroindustrial. Como se trata de um projeto voltado para o cooperativismo, deve ser realizado passo a passo, esperando-se que dentro de alguns meses já se possa ter um perfil do tipo de atividade que pretendem colocar em prática com a nova cooperativa.

Este é um fato inédito na história do cooperativismo catarinense e brasileiro e, por isso, merece o devido cuidado e muita dedicação, como se tratasse de uma criança que começa a dar os primeiros passos, dependendo, para isso, de um adequado preparo para garantir sua caminhada. Vale aqui aquela história: “não colocar a carreta na frente dos bois” e sim colocar a carreta no seu devido lugar, ou seja, os bois na frente puxando enquanto os donos vão conduzindo com segurança.

Quando se decide perseguir uma iniciativa é importante conhecer e dominar o assunto, contratar um técnico para assessorar, reunir um grupo decidido e trabalhar assiduamente e com afinco, pois quando surgirem problemas será fácil enfrentar, porque existe a imagem e a força do grupo que ajuda superar dificuldades compartilhando experiências e conhecimentos.

Palhoça, 26 de Julho de 2010.

João Andreata de Souza – Engº Agrº - Diretor Presidente do INOCOOP/SC

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