Benozzo Gozzoli: um pintor do Renascimento italiano

Por Pierluigi Benedetti Panza - abril de 2010P.B.PanzaP.B.Panza

Uma coisa é certa: foi discípulo de Beato Angelico, entre outras razões, porque colaborou com esse nos afrescos da cúpula da Cappella di San Brizio no Duomo di Orvieto e seguiu o grande mestre a Roma, onde teve participação na decoração da Cappella Nicolini nos museus do Vaticano. Mas seria injusto e limitativo parar por aqui porque Benozzo Gozzoli atingiu, no curso da sua atividade, uma autonomia artística que o levou à realização de obras-primas absolutas, mesmo que tenha continuado a ser semi-desconhecido do grande público (também, com esse nome!).

Igreja de Sant'Agostino em MontefalcoIgreja de Sant'Agostino em MontefalcoA Cappella dei Magi no palácio Medici Riccardi em Firenze é algo que nos deixa estupefatos visto que é difícil encontrar tanta graça e harmonia em uma obra de arte. E examinando-a atentamente descobrem-se muitas coisas. Há inegável influência neo-gótica de Gentile da Fabriano; a associação com a obra-prima do mestre marchigiano (A Adoração dos Magos), conservada na Galleria degli Uffizi, é imediata. Mas há também, e sobretudo, a graça e a beleza dos mestres do Renascimento que foram seus contemporâneos desde Filippo Lippi, e há, ainda, aquela idéia de arte como testemunho dos acontecimentos humanos, crônica e história ao mesmo tempo. A cavalgada dos Magos que se desenrola em um cenário de fábula é certamente a evocação de um episódio antigo contido nas sagradas escrituras mas é, também, a reprodução de um acontecimento moderno para o artista: o cortejo histórico que tinha percorrido as ruas de Firenze por ocasião do concílio que marcou a efêmera reconciliação com a igreja cristã do Oriente. E nos vultos dos personagens estão representados os membros da família Medici, o Papa e os artistas e intelectuais que foram seus contemporâneos.

Nas histórias de San Francesco em Montefalco, contudo, há outra coisa. Um passo adiante e outro para trás sem dar a essa constatação nenhum significado estético nem de julgamento crítico.
Para trás porque não se pode descuidar, dada a personalidade representada, do passado representado por Giotto e o período em que laborou na vizinha Assisi. Eu não saberia dizer, na minha ignorância, se aqueles personagens assim assimétricos e anti-perspectiva sejam uma homenagem ao grande mestre ou pura ironia. Resta o fato que salta aos olhos.

Um passo adiante porque essa é uma obra que vem plenamente inserida nos novos e revolucionários cânones que guiam a arte do Renascimento. A representação temporalmente diversa no espaço do mesmo painel é uma clara referência à Cappella Brancacci del Masaccio enquanto a perspectiva das arquiteturas que aflora aqui e ali é uma clara adesão às teorias de Leon Battista Alberti que vêm a ser o divisor de águas a toda a arte do Renascimento.

Além disso, de qualquer forma Montefalco, como tantos outros burgos medievais da Umbria, merece ser visitada também porque é a terra de um dos vinhos DOCG mais famosos e bons da Itália: o Sagrantino. Por esse motivo, a quem quiser visitar esse burgo aconselho a começar com os afrescos de Gozzoli antes da osteria. Se, porém, inadvertidamente, você decidir não dar bola ao meu conselho, digo apenas que San Francesco é aquele vestido de frade, não é uma figura dupla e não se move. Se você o vir se mexer um pouco, a culpa foi da osteria.

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