Cooperação & Cooperativismo

Por João Andreata de Souza - abril de 2010

A Cooperação é tão antiga quanto a luta do homem pela sobrevivência, sendo, portanto, já praticada desde os primórdios da civilização quando os homens se reuniam em grupos para realizar as tarefas de caçar, pescar, colher frutas e outros alimentos para o sustento dos demais integrantes do grupo.

Desde então ela vem sendo praticada para atender, prioritariamente, as necessidades materiais do ser humano, mas a Cooperação vai além dessas necessidades, passando pela segurança, proteção, pertencimento, autoestima e autorealização, sendo essas consideradas necessidades imateriais, como bem explica a conhecida escala de Maslow.

De tanto praticar a Cooperação, o homem conseguiu dar passos gigantescos na busca de novas formas para amenizar o contínuo e incansável esforço gasto para enfrentar as adversidades da vida.

Foi no Cooperativismo, movimento surgido para enfrentar a força arrasadora do capitalismo, alimentado e intensificado com a revolução industrial, que o homem encontrou o contraponto para se defender das ações nefastas até então inexistentes.

O marco inicial deste movimento ficou registrado na história da humanidade como o dia 21 de Dezembro de 1844, data em que 28 ingleses decidiram criar uma cooperativa de consumo, ficando conhecidos como os PROBOS PIONEIROS DE ROCHDALE.

Esta poderá ser a razão maior do “por que” o cooperativismo ainda não conseguiu seu reconhecimento pela sociedade, pois iniciou com um pequeno grupo de tecelões operários, de modesta condição social.

Este era, também, o discurso daquela época: É difícil convencer os pobres operários, quase indigentes, para comprar (associar-se) na cooperativa de consumo, com a probabilidade de receber um retorno no final do ano, pois era natural que desconfiassem de promessas e dos benefícios anunciados. Em todo o mundo e em todas as épocas os ignorantes não confiam em coisa alguma. Nada há de melhor para eles do que o dinheiro e somente ele, para se tornarem escravos.

Dizia-se também que o espírito é tão míope como os olhos e, em tal caso, faz boa falta um telescópio. A experiência tem demonstrado que a cooperação é um telescópio necessário para milhares e milhares de pessoas poderem se dar conta desta realidade.

Os efeitos da experiência vivenciada pelos PROBOS PIONEIROS DE ROCHDALE transmitiram-se no tempo, apesar das dificuldades de serem assimilados por maior número de pessoas. Atualmente existem mais de 850 milhões de cooperados em todo mundo, dentre os quais 7.900.000 estão no Brasil, nos 13 ramos que compõem o cooperativismo.

Por volta de 1890 o cooperativismo foi implantado na região Trentina, no Norte da Itália, trazido pelo sacerdote “Don Lorenzo Guetti”, que também era político atuante, representante daquela população na corte do Império Austro-Húngaro, em Viena, Áustria, onde teve a oportunidade de conhecer esta forma de organização socioeconômica. Atualmente o cooperativismo é uma das maiores expressões na economia daquela região, devido a algumas particularidades que vem sendo mantidas desde o início de sua implantação.

Uma delas se refere à educação e formação cooperativista, contínua e permanente, sendo este um dos desafios colocado como princípio cooperativista, o que é considerado “regra de ouro” do cooperativismo. Fazendo uma retrospectiva nos idos de 1844, foi citado no discurso proferido por um dos oradores que afirmou que, antes de oferecer serviços através da cooperativa, é necessário educar a gente pobre, pois entendiam que para existirem vendedores confiantes são necessários que existam, em primeiro lugar, compradores confiantes e honrados.

Em 2002 uma delegação de descendentes de trentinos, moradores de Orleans, no sul do Estado, foi fazer uma visita ao município de Ala, local de origem de alguns colonizadores que aqui chegaram ao final do século XIX.

Desta visita resultou uma proposta de intercâmbio cultural conhecida por gemellagio, ou cidades irmãs, que por sua vez desencadeou uma série de outras propostas, sendo que aquela de criar uma, ou várias cooperativas, foi a que mais encontrou eco entre os moradores da localidade de Rio Pinheiros, pois já não mais toleram entregar sua produção a troco de algumas moedas, enquanto que os seus parentes que moram na região do Trentino conseguem agregar valor aos produtos amparados por um cooperativismo bem estruturado e voltado para atender o produtor e não ao mercado, sem deixar de atuar com a devida força neste mesmo mercado.

A partir de Julho de 2009 iniciou-se um programa de iniciação para o cooperativismo, envolvendo um grupo de oito jovens moradores daquela localidade, com o intuito de participar de um curso de 5 semanas sobre cooperativismo na Federação Trentina de Cooperativas, localizada em Trento, Itália, cujo início está programado para o dia 26 de Abril próximo. Esse trabalho vem sendo assessorado pelo Engenheiro Agrônomo João Andreata de Souza, técnico especializado em Cooperativismo pela Organização Internacional do Trabalho, de Turin, e pela Unisinos de São Leopoldo, RS.

A expectativa é muito grande, pois para a maioria desses jovens é a primeira vez que viajam à Itália, principalmente porque irão participar de um curso de cooperativismo, num lugar onde funciona muito bem há 118 anos, apesar de ter enfrentado duas guerras mundiais e inúmeras crises envolvendo doenças humanas, pragas e doenças nas plantações, catástrofes, divisão territorial etc.

O que mais ficou evidente nos debates conduzidos pelo assessor em cooperativismo foi o fato de que o trabalho organizado, da forma como praticado pelos trentinos, é a maior comprovação do sucesso do cooperativismo.

Esta é a primeira vez que um grupo de interessados em cooperativismo recebe preparação antes de enfrentar uma realidade diferente, desconhecida em nosso meio cooperativista, o que certamente trará importantes contribuições para a prática de um cooperativismo sólido e pertencente aos cooperados, diferente do que conhecemos até hoje.

Quando retornarem da Itália, esses jovens terão o compromisso de compartilhar os conhecimentos lá adquiridos, colocando-os em prática na constituição e condução de uma cooperativa.

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