Foi em 1934 que Enrico Furio Dominici descobriu a luz

Por Sandro Incurvati - junho de 2009

Junto aos meus amigos João e Ireni, do Centro di Cultura Italiana, encaminhamo-nos a uma antiga e grande casa próxima ao shopping Iguatemi, em Florianópolis, onde moram Enrico Furio Dominici, 100 anos completados em 23 de fevereiro de 2009, e a Senhora Cleusa, zelosa esposa vários anos mais jovem.
“Senhor Dominici, o Senhor se lembra de mim? Conhecemo-nos há uns dois anos em um jantar da Famiglia Trentina”. O Senhor Enrico Furio sorri, talvez se lembre. Está sentado em uma poltrona, possui o olhar ainda vivo, e mostra uma extraordinária vitalidade. Tem uma grande vontade de falar e de me contar a sua vida.
Começa com a história de seu pai Enrico, garibaldino nascido em Palermo em 1848, que, contra a vontade do pai, iniciou, aos 17 anos, a correr o mundo como ator teatral. A Senhora Cleusa me mostra um jornal de época em que se fala de Enrico pai, que recitara junto a Ermete Zacconi, grande ator do final do século XIX, ator com cuja irmã Enrico pai casara-se. O Senhor Enrico Furio me conta das turnês de seu pai em todo o mundo, dos Estados Unidos à França, da Rússia ao Brasil.

A nossa poderosa máquina do tempo faz repentinamente um salto de meio século: encontramo-nos em Bolonha, em 1934, quando Enrico Furio, com 25 anos, compra por um preço vantajoso um local situado na Praça Galvani e abre um negócio de lampadários e iluminação decorativa, a “Dominici Illuminazione Moderna” [Dominici Iluminação Moderna]. Os negócios vão inesperadamente bem, abre um segundo negócio em Bolonha, casa-se com a sua primeira esposa, com a qual terá três filhos, dois nascidos na Itália e um no Brasil.
A guerra não poupa Bolonha, Enrico Furio deve recomeçar tudo do zero. Vende os seus negócios e graças à sua reconhecida seriedade consegue, junto às fábricas de lampadários e de cristais – em particular daquelas de Murano –, a possibilidade de adquirir o material pagando a prazo.

Em 1946, com a esposa e dois filhos de poucos anos cada um, embarca com 35 caixas cheias de esplêndidos cristais com destino ao Rio de Janeiro, onde organiza uma grande exposição para revendedores no Hotel Copacabana Palace. No mesmo ano muda para São Paulo onde, graças à colaboração de dois conhecidos arquitetos, coloca de pé um belíssimo negócio na rua Xavier de Toledo, pelo qual recebe cumprimentos até mesmo de Oscar Niemeyer.
Os seus lampadários, ainda que caros para a economia da época, fazem grande sucesso, chamando a atenção seja dos muito ricos que podiam permitir-se comprar seus artigos, seja dos menos favorecidos, fascinados pelos cintilantes cristais de “Dominici Illuminazione Moderna”.
Sucessivamente, pára de importar lampadários e abajures da Itália e começa a sua fabricação no Brasil, obtendo cada vez mais sucesso, ampliando a própria clientela com a criação de peças exclusivas para hotel, navios e bancos, e se transformando ponto de referência para arquitetos e decoradores.
Nos anos 70 Enrico Furio expande o seu império abrindo outros negócios em São Paulo, no Rio e em outras cidades brasileiras.

Após a morte de sua primeira esposa, conhece Cleusa Toledo Dominici e casa-se com ela, com quem terá seu quarto filho, Marcos.
Durante um período de férias em Itapema, Dona Cleusa se apaixona pelas praias de Santa Catarina e, em 1988, muda-se com o marido e o filho para Florianópolis, cidade em que residem atualmente.
Dona Cleusa é muito afetuosa com Seu Enrico, chama-o “meu amor” e o atende com um carinho indescritível.
A entrevista termina, seu Enrico demonstra um pouco de justificável cansaço; deixo-o conversar em um modo menos custoso com o meu amigo João Andreata, enquanto Dona Cleusa mostra para mim e Ireni as fotos de seu marido quando criança, dos filhos que crescem e, com muito orgulho, do filho deles, Marcos.
100 anos de vida vivida com plenitude e com sucesso, entre a Itália e o Brasil, guiado pela sua paixão pela iluminação decorativa.
Na revista Casa Vogue lê-se: “Foi em 1934, em Bolonha, que Enrico Furio Dominici descobriu a luz.”

Furio Dominici faleceu após essa entrevista, em dezembro de 2010.

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