Morro Albino

Por Derlei Catarina De Luca - junho de 2009

Derlei conta...

Povoado fundado pelos imigrantes italianos no sul do estado

Morro Albino não é um povoado. Na verdade é uma estrada. Foi uma rota, o caminho de passagem entre Criciúma e Araranguá no início do século XX. Era a rota dos tropeiros e dos imigrantes.
Os tropeiros vinham da Serra com gado, charque, queijos e couros para vender aos açorianos de Araranguá ou chegar até Porto Alegre. Passavam pela estrada de Morro Albino. Os imigrantes moravam ao longo da estrada dedicando-se a agricultura e trocavam produtos com os tropeiros.
Eles traziam também pinhão nas bruacas das mulas e quando tinham dinheiro levavam produtos importados. A maioria se contentava em trocar seus produtos por sal, pimenta, fósforo e tecidos. Às vezes, com as tropas, apareciam serranas chiques e ricas, sentadas em selim de veludo vermelho deixando uma forte impressão nas moças e nos rapazes de Morro Albino. Pensavam em amores e aventuras.
Com a construção da Ferrovia Dona Teresa Cristina a rota de Morro Albino perdeu importância de eixo econômico e muitas famílias mudaram-se do lugar. Os produtos passam a ser exportados pela ferrovia e as famílias que ficaram em Morro Albino, a partir daí, se dedicaram somente à agricultura.

PRIMEIRAS FAMILIAS - No início do século viviam ali:
Paulo Rizzieri e Catarina Lucheta;
Carlo e Paulina Rosso;
Francisca Cordela e Batista Rosso;
David e Meschina Mariot;
João Cechinel e Luiza Dalló;
Ângelo Pavei e Ângela Rosso;
Olívio Pavei e Giustina Guglielmi;
Henrique Salvador e Luiza Rizzieri;
Santo Salvador e Santina Dagostim;
Pedro Salvador e Jacomina Rosso;
David Pavei e esposa da família Darós;
Luis Rossi Fermo e Anita Pavei;
José Pavei e Maria Zanetti e depois Libera Rosso;
Luis Rosso e Carolina Pavei;
Antonio Rosso e Marieta Pavei;
Julio Rosso e Libera Cechinel;
Domingos Rosso e Santa.

TIA PAULINA ROSSO
Era enfermeira prática e farmacêutica. Fazia remédio caseiro, conhecia todos os tipos de chá. Prestativa, cuidava dos doentes, das crianças com sarampo, dor de barriga, perna quebrada e de quem precisasse de sua ajuda.
Para baixar a febre fazia emplasto (batia ovo com casca, farinha de trigo, noz moscada e óleo). Colocava no pé das crianças e esperava 24 horas para tirar. Neste tempo a criança não podia apanhar vento nem se banhar.
Para dor de barriga tinha o remédio infalível desde tempos memoráveis: óleo quente na barriga esfregando com a mão.

A NONINHA PAVEI - (Luisa De Menech Pavei)
Mãe do tio Ângelo, do tio Olívio, da Marieta, Carolina, José, David, Carmela, e Anita. Media um metro e meio de altura e sua vontade era inversamente proporcional ao seu tamanho. Pequena e forte, era a parteira da localidade. Na Itália fora ama de leite, servira em casa de famílias ricas onde adquirira um refinamento que as outras mulheres não possuíam. Tinha a pele alva, era diplomática, refinada, e delicada como poucas mulheres.
Os bebês nasciam pela sua mão e a noninha se orgulhava de nunca ter “perdido uma criança sequer”. Seus partos eram bem feitos e sempre bem sucedidos. Ficou viúva muito cedo, de Francesco Antônio Pavei, era benquista pela comunidade e adorada pelos filhos.
Apaixonada pelo marido já falecido, dizia rindo que era melhor um marido de palha do que um filho de ouro.

FAMÍLIA RIZZIERI
A família Rizzieri chegou ao Morro Albino em 1919.
Construiu um sobrado ao lado da Igreja, onde tinham loja de Secos e Molhados, um salão de baile, dormitório para os passantes com quatro habitações e 30 “brandas” feitas de tiras de lona trançada que quando não estavam sendo usadas eram guardadas.
Serviam comida e pouso para os viajantes. Tinha um piquete bem em frente à igreja com um pasto imenso de grama bem cuidada para os cavalos dos tropeiros, seus fregueses.
Paulo Rizzieri comprava porco já abatido dos agricultores apesar de criar alguns para seu uso. Mandava cortar e salgar. Escolhia as melhores partes, chamadas de peças especiais e exportava para o grupo Matarazzo. A carne era colocada em jacas - cestos enormes feitos de taquara trançada.
A banha produzida em duas caldeiras enormes era coada e colocada em latas de 20 quilos, feitas de folha de Flandres. O mestre latoeiro era Ângelo Rosso que tinha vários ajudantes.
Os produtos eram levados pelo litoral, em burros e carros de bois até o Pontão em Laguna e embarcados nos navios da empresa de Carlos Hoepcke.
A empresa Matarazzo fornecia em troca: azeite de oliva importado, (naquele tempo não havia soja no Brasil.É um produto relativamente recente) bebidas finas, tecidos, louças de porcelana chinesa e absinto que fazia a cabeça da rapaziada.
Cada final de ano a empresa Matarazzo mandava a nova folhinha (calendário) que todos recebiam e guardavam.
Paulo viajava para Araranguá para resolver os problemas do povoado e pagar os impostos para os colonos. Anotava tudo numa caderneta e domingo depois d o terço se reuniam na bodega a acertavam as contas.
Paulo Rizzieri faleceu do coração em 1937, logo após o golpe do Estado Novo que suspendeu as eleições e manteve Getulio no poder.
Ele era partidário de Júlio Prestes representado na região por Marcos Rovaris. Tinha um cachorro meio brabo e seu compadre João Mura apelidou o cão de Vargas.
Quando se encontravam, o compadre gritava: Como vai o cachorro Vargas? Riam e se divertiam chamando o cachorro de Vargas.
Tropas gaúchas levadas por Cincinatto Naspolini vão até sua propriedade para prende-lo por causa do tal cachorro. Algum tempo depois teve um enfarto e faleceu. Era um visionário. Dizia para as filhas:
”Depois de 1960 vocês verão muitas coisas acontecerem. Coisas que jamais suspeitaram poder existir. O mundo será transformado”.
Catarina Luchetta como tantas outras era uma mulher determinada. Criou as oito filhas e um filho com mão de ferro e com o lema: Ver, Ouvir e Calar.
A IGREJA foi construída pelo senhor Luchina e as pinturas feitas por Eugenio Rosso, pagos pela comunidade que, além disso, ainda ajudava a manter a paróquia São José que era chamada de paróquia mãe.
São Sebastião é o padroeiro, mas em outubro havia a festa de Nossa Senhora do Rosário. Durava uma semana, com barraquinhas e novenas celebradas pelo P. Ludovico Coccolo.
Nas festas de São Sebastião e de Nossa Senhora do Rosário vinha gente de todos os arredores: Mãe Luzia, Morretes, São Roque, Sangão, Capão Bonito, do sitio dos Dagostim perto do Morro Estevão. Vinham a cavalo ou em carro de boi.
A missa era rezada em latim. A criançada gostava das músicas, mas não entendia o significado de nada. Rezavam o terço todo, as cinqüentas Ave Marias, todos os Pai Nosso, a Salve Rainha decorados como um “mantra”. De memória, tudo em latim. Se parassem, tinham de começar tudo de novo para pegar o ritmo.
Às vezes, um ou outro domingo, as Rizzieri, junto com outras moças iam a missa, em Criciúma. Umas vezes a pé, outras a cavalo. Quando iam a pé tinham de levantar as 5 horas da manhã para chegar na missa da 10. Caminhavam 5 horas. Trocavam de roupa num paiol de propriedade do senhor Marcos Rovaris. Naquele tempo andava-se sempre com uma maleta, uma toalha ou um pano e a roupa de domingo. As viagens eram demoradas, os caminhos inóspitos, as ruas poeirentas e para estar sempre bem apresentáveis tinham de levar outra muda de roupa
O cemitério, um dos mais antigos da região, foi construído conforme os costumes da época, atrás da igreja. 14 imigrantes estão ali enterrados e seus túmulos ainda não foram destruídos. Os túmulos das crianças eram projetados como se fosse um cilindro partido ao meio.
Tem o significado de um berço de balanço que a mãe pode embalar.
Casa de Paulo RizzieriCasa de Paulo Rizzieri

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