"Tutto fa curriculum" : um ano de estudo e trabalho em Veneza

Gabriel Alcantara - maio de 2008

Minha pequena aventura em Veneza começou ainda no Brasil, quando meu melhor amigo me carregou dentro de um antigo sonho seu: estudar no exterior. Não posso dizer que me convenci rapidamente, uma vez que viajar para a Europa parecia fora do meu alcance - tanto porque pensava não ter a preparação suficiente, maturidade, coragem, etc, quanto porque não tinha meios financeiros. Sou natural de Blumenau - a cidade da Oktoberfest! - e estudo Ciências Econômicas na UFSC, em Florianópolis, desde 2005. Com 17 anos tinha ido pra Florianópolis "cru", como dizem - sem experiências de trabalho e com pouca história pra contar! Ali, como muitos amigos meus, me pus a trabalhar de dia e a estudar de noite e "ia levando".GabrielGabrielAí me chega esse meu amigo dizendo que ia para os Estados Unidos estudar e que eu também deveria ir! Nao levei muito a sério no princípio, mas comecei a pesquisar algumas coisas. Descobri que minha Universidade tinha convênios com muitas universidades do mundo todo: Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Itália, Reino Unido, Argentina, Portugal.... Como minha família tem origem italiana, resolvi conferir se havia alguma Faculdade de Economia conveniada na Itália. Tinha: Universidade Ca' Foscari di Venezia. Comecei, então, a me empolgar com a idéia, ainda mais quando soube que uma amiga (Mari, da UFSC) também vinha decididamente pra cá, mais ou menos 3 meses antes de eu vir... Entrei com o pedido na UFSC, encaminhei a papelada para a Itália, fiz meu passaporte, descobri quais os procedimentos para obter o visto junto ao Consulado, comecei a estudar a língua, procurei conhecer italianos que pudessem me dar informações úteis, procurei conhecer, pela internet, brasileiros que estivessem aqui e pudessem me dar uma noção do que eu iria encontrar pela frente...Tudo pronto? Ainda não! Com a carta-convite da Universidade italiana na mão era hora de contar à minha família! A reação inicial não foi favorável: "É um passo grande demais!!", ainda mais grande porque iria requerer um "montante pecuniário" além das nossas possibilidades. Não durou muito, porém, esse momento de, digamos, oposição. Vendo que eu já havia feito tudo que estava ao meu alcance, meus pais começaram a procurar possíveis soluções. Recorreram, por fim, a um banco, tomando em empréstimo a soma necessária para a passagem aérea e para meu primeiro mês aqui. Um mês depois eu chegava em Veneza com um mapinha de mão, às onze horas da noite do chuvoso dia 21 de agosto de 2007. Uma alegria inimaginável tomou conta de mim! "Estou em Veneza!"

O choque principal no início foi a língua. Se eu pudesse ter imaginado antes os problemas que me ocorreriam por não saber me comunicar sequer basicamente em italiano, teria passado volentiere várias noites a base de café, estudando l’Italiano e não somente os palavrões!

Comecei, então, a construir minha pequena vida aqui. Sem poder me dar ao luxo da timidez e da vergonha por perguntar onde é a cereja (ciliegia) San Marco ao invés de Chiesa San Marco, por exemplo, comecei a fazer amigos, primeiramente com o pessoal da Universidade e depois nos happy hour no Campo Santa Margherita e nos dias de sol em Zattere, geralmente com estudantes estrangeiros Erasmus (programa de intercâmbio da Europa)... Acreditava ter sido sortudo por ter encontrado pessoas muito compreensivas e solícitas que me ajudaram demais. Depois percebi que elas estão em todos os lugares, bastando que façamos a nossa parte. É claro que ser brasileiro ajuda muito! E é claro que encontrei também pessoas de um mau humor fenomenal, passando por momentos muito desagradáveis, mas havia tanta coisa para fazer que nem ligava muito!!

Como Veneza não é uma cidade que oferece muito entretenimento aos estudantes, minhas "noitadas" são jantares na casa de amigos espanhóis, franceses, portugueses, italianos, um alemão doido parceirão... e de brasileiros, claro.

Comecei, então, a ir às aulas, me inscrevi num curso de italiano e comecei seriamente a procurar um emprego pois viver com um "horizonte dinheiral" de um mês só, assusta! Enfim encontrei um lavoro part-time como garçom em um restaurante em Veneza. Minha amiga também encontrou facilmente um trabalho, em uma loja na região de Rialto. Dois meses atrás chegou uma outra amiga estudante de jornalismo na UFSC, Luisa, que tambem conseguiu um emprego part-time e ganha até mais que eu!! Para estudantes (ainda mais se são estrangeiros) em geral é mais fácil conseguir um emprego na Itália, visto que a lei trabalhista aqui também conseguiu criar modalidades de contratos de trabalho que oferecem postos não-estáveis. O que se ganha, entretanto, é suficiente para viver: aluguel, comer bem, tomar uma cervejinha, ir a uma baladinha... Sem sacrificios, mas sem moleza também.

Fiz já dois cursos de italiano e farei mais um antes de retornar. Os exames da Faculdade são bem dificeis e requerem ou muita dedicação ou uma ajudinha do professor que geralmente tem piedade dos estudantes estrangeiros. Se eu tivesse estudado mais poderia até mesmo validar um ano de Universidade no Brasil, mas quem se importa? Acredito que consigo validar pelo menos um semestre, considerando o outro um bônus de tudo o que a vivência de um ano no exterior pode me proporcionar.

A saudade é grande: da família, dos amigos, churrascos, arroz e feijão!!, da simpatia do nosso povo. Ela cresce tanto quanto a velocidade do tempo aqui - faltam poucos meses para voltar!

Um pouco antes de eu vir pra cá disse ao meu tio, que foi o primeiro da família a acreditar nessa experiência - "é hora de dar a cara a bater!" E foi exatamente o que aconteceu. Embora eu esteja em um lugar muito bonito, sonho da vida de muitas pessoas, e tenha conhecido pessoas muito legais e verdadeiros amigos, a sensação de não estar em casa, de ter família e amigos longe, de embaraço por não conseguir me expressar direito em situações dificeis me acompanha sempre. Entretanto, como disse meu amigo Mauro, um italiano figuraça que trabalha comigo - "tutto fa curriculum" e eu sei que o que vi e aprendi aqui me valerá para muita coisa no futuro.

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